SKLEIN Consultoria em Sustentabilidade

Geologia, Consultoria e Perícia Ambiental

   fev 04

A crise de abastecimento de água.

Não parece ser complicado entender que a água desempenha um ciclo onde envolve chuva, infiltração, retenção pela vegetação, retenção pelos organismos, alimentação de drenagens, lagos e oceanos, geleiras, evaporação, formação de nuvens e, novamente, chuva. Aprendemos na escola sobre o ciclo natural da água ainda em tenra idade.

Podemos imaginar quais seriam as consequências para esse ciclo natural quando falta a chuva. Porém não estamos acostumados a pensar nas consequências de alterações em outros pontos deste ciclo, como impedir que a água se infiltre ou eliminar sua retenção pela vegetação embora possamos sentir seus efeitos na deterioração de nossa qualidade de vida.

Quando todos os pontos desse ciclo natural são afetados ao mesmo tempo as consequências são desastrosas e isso também não é difícil de se sentir na pele. Aliás é o que se passa com a maior metrópole do hemisfério sul do planeta, nesse início de ano de 2015.

Com mais de 4.000 drenagens naturais a cidade de São Paulo e sua população parecem sentir vergonha de seus córregos, enterrando-os em canalizações fechadas e impedindo que a água da chuva escoe naturalmente. Retificou seus rios meandrantes transformando-os em longos trechos retilíneos com o objetivo de escoar mais rapidamente toda a água de chuva e ocupou-se toda a várzea sem critério técnico que pudesse justificar essa invasão do espaço natural. Com a impermeabilização de áreas com ruas asfaltadas, calçadas contínuas, quintais cimentados e construções nos limites máximos de ocupação dos terrenos a água não mais infiltra escoando livremente e os córregos enterrados e canalizados não dão conta de dar vazão a esse excesso de água provocando constantes inundações. Para se corrigir isso constroem-se “piscinões” que mal dão conta de resolver o problema e ainda trazem consequências de insalubridade para toda a vizinhança.

Ao substituir as áreas verdes por construções, a retenção da água pela vegetação também mostra-se insuficiente para cumprir seu papel no ciclo hidrológico.

Para colaborar ainda um pouco mais com esse desastre, utilizamos a água em volumes além do necessário e devolvemos essa água ao ciclo natural na forma de esgotos que de uma forma ou outra acabam fazendo parte do ciclo sendo despejados nos córregos e principais drenagens e com pouco ou nenhum tratamento são conduzidos à sorte natural de serem assimilados pelo meio ambiente.

De tempos em tempos a quantidade de chuva sofre uma variação para cima ou para baixo da média. Estamos em um período onde essa variação é para menos. Assim, mesmo com uma grande quantidade de água de chuvas que ainda podem transformar grandes áreas inundadas estamos com um problema de abastecimento dessa mesma água.

A cidade foi totalmente construída para eliminar toda água que cai sobre ela, não retendo-a na vegetação quase inexistente, na infiltração eliminada com a impermeabilização da cidade e com a retificação de suas principais drenagens. Um erro grotesco de engenharia que pode ser considerado como um grande desastre ambiental. Infelizmente esse tipo de erro não ocorre somente em São Paulo ou na metrópole. Torna-se conceitual a adoção dessas mesmas soluções desastrosas em todas as obras com enfoque urbano.

Elimina-se rapidamente a água da vida urbana, impede-se sua retenção pela vegetação e pela infiltração nos solos e faz-se o lançamento dos esgotos com tratamentos mínimos para os córregos misturando água de boa qualidade com água contaminada. Não se pode esperar outro resultado que não o desastre total de não poder dispor do recurso natural essencial para a vida que é a água em quantidade necessária e em qualidade admissível.

A crise de abastecimento de águas em São Paulo reúne todos esses aspectos e alia-se a outros problemas decorrentes do desperdício desse recurso como vazamentos da rede de distribuição e dificuldade em gerenciar o uso da água para uma população de quase 20 milhões de pessoas consumindo em média 250 litros/dia/pessoa, num total de aproximadamente 5 bilhões de litros por dia.

Os reservatórios que abastecem São Paulo oferecem um total de 55m³/s o que equivale a 4,75 bilhões de litros por dia. Ainda, a água subterrânea que não é computada no sistema de abastecimento público colabora com pouco mais de 750 milhões de litros por dia.

Pode-se notar que embora os números sejam de grandes dimensões, há pelo menos um déficit de 500 milhões de litros por dia para o consumo da forma que está sendo utilizada a água e que só tem sido equilibrado devido ao uso da água subterrânea e por condições climáticas estáveis. Qualquer alteração climática, ainda que previsível, com chuvas abaixo das médias históricas, o colapso total do sistema é certeiro. Ou se investe em aumentar a capacidade dos reservatórios ou diminui-se o consumo, inclusive as perdas por vazamentos na rede.

A chuva que cai na cidade de São Paulo não é aproveitada para o abastecimento, exceto aquela que infiltra e alimenta o manancial de águas subterrâneas, porém encontrando cada vez mais obstáculos que impermeabilizam o solo e diminuem a recarga do aquífero. Isto sem contar que essa água pode estar sujeita a diversas fontes de contaminação.

O fato é que a água dos reservatórios se esgotaram totalmente, por problemas decorrentes do mal uso, do desperdício, do péssimo planejamento, de variações climáticas hostis (porém, previsíveis) e, principalmente, pela forma de uso e ocupação do solo urbano, o desrespeito às leis ambientais de preservação de drenagens e nascentes, impermeabilização dos solos eliminação da cobertura vegetal e lançamento de lixo pela cidade de maneira não civilizada pela população.

Dá para culpar os governos por essa catástrofe ambiental, porém cada um dos habitantes desta cidade também são cumplices das consequências da falta de água.

A crise que ainda está no início será longa e com tempo suficiente para todo tipo de reflexão. Até lá, cada um deverá encontrar uma saída através da economia de água, seu reuso ou obter o recurso em outras fontes de captação. Todas as ações, no entanto, não são confortáveis e significam custos adicionais para se sobreviver a essa catástrofe ambiental.

Cabe refletir sobre o significado de nossos rios escondidos, poluídos e sem respeito sobre sua real importância. Cabe também refletir o quanto colaboramos em interferir pontualmente na impermeabilização dos solos. Forçosamente teremos que refletir se nosso consumo está adequado uma vez que o recomendável pela Organização Mundial de Saúde é de 110 litros por pessoa por dia. Consumimos mais do que o dobro do necessário.

Mas, mesmo diminuindo o consumo pela metade a crise está indicando que não será o suficiente. Prevê-se que cada pessoa possa receber, sendo otimista, apenas 40 litros de água por dia, sem ter como questionar a qualidade.

Um bom planejamento familiar ou por condomínios pode gerar algumas alternativas para o enfrentamento da crise de distribuição que se tornará maior entre maio e agosto quando as chuvas são normalmente raras em São Paulo.

Deve-se, ponderar que apenas estocar água de chuvas pode ser uma solução paliativa e com pouco tempo do período de chuvas, sem contar que o armazenamento dessa água exige espaços que nem sempre são disponíveis em residências ou condomínios de apartamentos.

Para cada situação haverá soluções próprias a serem implantadas pela população. Pode-se não saber como serão essas soluções ou suas consequências durante o período de catástrofe, porém sabe-se também que teremos mais cuidado com os recursos ambientais imprescindíveis à vida.

 

 

Bacia do córrego Panamby, Vila Andrade

A região de Vila Andrade e parte do Panamby estão inseridos na microbacia hidrográfica do córrego Panamby, conforme ilustração. Esta área tem aproximadamente 65 hectares, ou seja 650.000 m².

Uma chuva de 10 mm significa que em 1 metro quadrado de área choveu o equivalente a 10 litros de água. Assim, em uma área de 650.000 m² com uma chuva de 10 mm são recebidos na bacia 6.500.000 litros de água capaz de atender 26 mil pessoas em um dia consumindo 250 litros por pessoa.

Em uma área preservada e não impermeabilizada o volume de chuvas fica 80% retido na própria área pela vegetação e por infiltração nos solos. Ao contrário, em uma área intensamente urbanizada 80% do volume das chuvas escoam superficialmente e produzem alagamentos na cidade.

 

 

 

Com a impermeabilização de toda a bacia hidrográfica, toda essa água vai direto para o rio Pinheiros juntando-se com os esgotos e seguindo para o Tietê sem antes produzir inundações pelo caminho.

A precipitação média anual na cidade de São Paulo é de aproximadamente 1375 mm. Assim, em uma bacia como a região do Panamby e Vila Andrade, em um ano chove o equivalente a 893,75 milhões de litros;  água suficiente para atender uma população de pouco mais de 22 mil pessoas durante todo o ano atendendo o consumo recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

 

Sergio Kleinfelder Rodriguez (sergio@skleinconsultoria.com.br)

Geólogo, Doutor em Geociências, Perito Judicial e Consultor em Meio Ambiente e Sustentabilidade.

 

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